Gigante (coração de pedra)

 

Num segundo um disparate

Viu sua vida um passo a frente

Seu pai viciado em…

craque em fazer sofrer

Tão frio como de costume

Caiu duro bem na sua frente

Levando a cruz

Deixando a conta pra sobreviver.

Pai filho da mãe ninguém merece ter.

Mas o velho deixou assim a coisa acontecer.

A neurose de herança

Nem sabia da existência

Era tudo mas nem se dava conta dela ali.

O orgulho a muito se esvaíra

Disso só a palavra conhecia

Jurava ao filho que ainda não existia

Com melancolia típica natalina

Que esse presente ia ser dado todo dia.

Pois de pequeno já sabia que a vida

Ali fora era covardia

Pulou corda de olho na própria sombra

Fez coisas de muita valia

Cuidava de carros e era educado

Até com quem não merecia

Ganhou trocados

sempre calado

Já em casa relaxado

Esquentava a bóia merecida

Queria entender de um entendimento

De quem na escola não ia

Qual o sentido disso tudo ?

Porque se fazia tanta gente

Se toda essa gente não se mantinha.

- Não vou ter filho porra nenhuma – Ele não mereceria.

E o poeta burguês imbecil diria:

“ a manifestação do amor involuntária e instintiva”.

- Poeta filho da puta sou coração de pedra.

E a vida segue. Por que não seguiria ?

O Gigante toma formas. Por que não tomaria ?

Na TV ele assistia soldados sem guerra

Procurando sonhos atrás de uma milha.

Pelas esquinas muitos pais filhos da mãe

Viciados pobres diabos escravos que

Nem por um instante se dão ao trabalho de sobreviver.

Tanta merda uma droga e eles festejam entorpecendo

cada centavo de comida da família.

tão triste essa noticia, mas já não é uma ironia.

O gigante já tem barba

Braço longo tatuado

mete medo só de olhar

Economiza na palavra

Dá um jeito

arruma outro emprego

e se vai paletear.

Economia é alegria quando põem no fim do dia

A mão na carteira com ousadia e sente ela gorda a estourar.

O mundo não é de todo mau.

Tem gente boa gente honesta que do Gigante gosta e aposta.

Ele ganha academia, roupa boa sonho e comida pro banquete de jantar.

E não é que um belo dia o Gigante leva medo quando a moça da faxina

Ali do prédio da esquina passa livre leve solta

e mexe no cabelo dando pinta que quer dar.

A principio foi o cheiro que ela nem se apercebia.

Só parava de pensar.

Com o tempo ela procurava

E se achava bem no fundo do olhar

E o Gigante não sabia

Mas intuía

Nos seus 20 anos de vida

Que era a hora de atacar.

E o poeta burguês imbecil:

“A manifestação da libido como essência da paixão

Desencadear –se pode num fatal amor.”

Gigante não conheceu poetas.

Não entende a vida, porque de poesia entenderia ?

Coração e pau de pedra pra poesia

E pra menina da faxina

que ele esperava de tocaia

noutra esquina de quem vinha.

Não deu tempo de correr.

Pulou na coitadinha

sem saber se ela queria.

Botou no muro

botou em tudo que é furo

E sentiu ela bem menos arredia.

Quando cansou

aí pensou no mal que cometia.

Mas pra surpresa do Gigante e da torcida escondida

A menina contorcia e suplicava, não pedia:

- Mete mais que é preciso. Preciso disso todo dia.

E não é que bem no fundo ela curtia 

se divertia e todavia putaria parecia

era amor de poesia

em formato baixaria

que ela tanto precisava

Que ele tanto assim queria.

Achou um canto no cafofo

passou comendo bem todo dia.

Conversavam sobre a vida

e o gigante já sabia

Até a idade que ela tinha.

Bóia quente e de tudo ela fazia

Até o que nas historias mais sacanas ele ouvia.

- Eu achando que era vadia. Baita moça de família.

Gostava da brincadeira. Ela mesma não escondia.

Mas quando viu ela cuidava dele.

Ele acabou cuidando dela.

Dois empregos cada um. Mais prato de comida.

Até TV colorida. Enquanto um sonhava o outro ria.

E juntos sorriram quando não entenderam muito bem

O que ela tinha na barriga. Já era uma família.

E o Gigante que não entendia o porquê da vida

Sentiu a coisa bem corrida quando a menina da faxina

Sentia dor e gemia sem parar

na porra do telefone que só recebia.

Se encontraram no posto, ele chegou ela dormia

Ele demorou o ônibus não vinha

Entre o choro e o sorriso preferiu a alegria

Olhando o pequeno Gigante que já vira

Nunca vira coisa mais sincera.

Mal parecia de tanta felicidade não cabia.

Se quebraria gritando a coisa mias linda.

E o Gigante finalmente explicaria.

Pra si pra todos e pra tudo que havia,

mesmo sem entender ainda,

o sentido dessa história de merda que é a vida.

A morte entra tantas ladainhas ainda viria

mas isso em outra poesia.

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